Estrela, Estrela
Vitor Ramil
Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é
No corpo nu
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos
E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer
É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs
Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui
Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão
Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção
http://www.youtube.com/watch?v=3gf54tWVIBc&eurl=http%3A%2F%2Fletras%2Eterra%2Ecom%2Ebr%2Fvitor%2Dramil%2F272618%2F&feature=player_embedded
domingo, 31 de maio de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
domingo, 19 de abril de 2009
Conversas com Clarice
"(...) Soube de um ela que morreu na cama mas aos gritos: estou me apagando!"
"Estou neste instante num vazio branco esperando o proximo instante. (...) nunca começou e nunca vai acabar.(...)"
Agua viva. Clarice Lispector, RJ, Rocco, 1998.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Inspirações...
"São bem poucos os que operam nesse muro ou nesse limite esquizofrênico aquilo que Laing denomina transpassagem: “gente comum”, todavia... Em sua maioria, eles se aproximam do muro e recuam, horrorizados. Melhor recair sob a lei do significante, ser marcado pela castração, triangulado em Édipo. Com isso, portanto, eles deslocam o limite, fazem-no passar para o interior da formação social, entre a produção e a reprodução sociais, que eles investem, e a reprodução familiar sobre a qual eles assentam todos os investimentos. Fazem passar o limite para o interior do domínio assim descrito por Édipo, entre os dois pólos de Édipo. Não param de involuir e de evoluir entre estes dois pólos. Édipo como último rochedo, e a castração como alvéolo: mais vale uma última territorialidade, ainda que reduzida ao divã do analista, do que os fluxos descodificados do desejo que fogem, correm e nos arrastam sabe‑se lá para onde? A neurose é isto, deslocamento do limite para guardar para si próprio uma pequena terra colonial. Mas outros querem terras virgens, realmente mais exóticas, famílias mais artificiais, sociedades mais secretas que eles desenham e instituem ao longo do muro, nos lugares de perversão. Outros, ainda, enojados da utilidade doméstica de Édipo, mas também dos gêneros vendáveis e do esteticismo perverso, atingem o muro e pulam sobre ele, às vezes com extrema violência. Então, eles se imobilizam, calam-se e se redobram sobre o corpo sem órgãos, ainda uma territorialidade, mas desta vez totalmente desértica, na qual toda a produção desejante para ou cristaliza, finge parar: é a psicose. Corpos catatônicos que caíram no rio como chumbo, imensos hipopótamos fixos que não mais voltarão à superfície. Confiaram com todas as suas forças no recalcamento originário para escapar ao sistema repressão‑recalcamento que fabrica os neuróticos. Mas uma repressão ainda mais nua se abate sobre eles e os identifica ao esquizo de hospital, o grande autista, entidade clínica a quem “falta” o Édipo."
DELEUZE, G. GUATARRI, F. Passagem contida em o Anti édipo (p.161 do orig. Anti édipo).
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Estranhezas de um dia. (escrito em 22/12/2008)
Estranhezas de um dia. Hoje chove bem em são Paulo, novamente, pinto as paredes que ainda me demandam tinta, nesta casa em plena transição... Para onde caminhamos ela e eu? Não sei bem. Coloquei-me na janela...
Ela olha a chuva começar a cair na janela, seu corpo-chuva respinga gotas de memórias que escapam pelos poros da pele. Misturam-se o suor do esforço que empreende para pintar paredes e as gotas d’água geladas que respingam...um banho de chuva na janela, ela pensa. Por instantes, as gotas agitadas encontram outras gotas e, simultaneamente, o Rio, São Paulo e Porto Alegre chovem.
O cheiro da chuva. O cheiro dele. Uns pêlos tocando-lhe o rosto. Arranhando a pele debaixo do guarda-chuva preto naquela viela de paralelepípedos. Uma rede amarela se balança contra o vento forte que carrega a chuva acompanhada de Elvis... A chuva fustiga a janela e seus olhos observam os passantes na rua, correm a atravessar o farol que insiste em não fechar a tempo, tempo de passar... passam. Teriam eles passado o farol? A sinaleira? O semáforo? Teriam eles arriscado dizer...que diziam?que dirão da chuva que não cessa de cair? Teremos alagamentos? Teremos a represa com água para abastecer a cidade nos próximos meses?
Ela olha a chuva e os raios pela janela. Seus olhos azuis e o cinza das nuvens parecem se confundir, onde começa um, onde termina o outro... que diziam? Que diziam quando as mãos soltas buscavam-se um adeus...que diziam eles... a água invade por todos os lados do vitrô antigo, escorrem gotas pela parede recém pintada... para onde seguem esses rios... fariam baía, Ah! baía querida, que é que guardas para mim? Que peixes poderia colher nesta manhã ensolarada? Que peixes esses homens trazem para seu bico-mulher, bico-ave...
Um corpo-chovendo, um corpo chovendo ele, ela, a janela. Um corpo que chove a presença, as contaminações de outras peles, que chove... pele que enxágua os olhos azuis que escorrem pelos poros rio adentro. Que caminhos traçam, trançam ele-ela? As flores pequeninas da primavera, lilases, rosas, brancas enfeitam os cabelos da cidade-ela nos olhos dele... insistências de um amor...
Não há escolhas possíveis, as combinatórias da chuva-ela multiplicam-se nos vidros daquela tarde de nuvens carregadas e trovões, os raios atravessam os céus, as terras, as peles, fazem de cada trovoada um caminho... cada choque dos átomos, um caminhar... que caminhos traçam, trançam ele-ela? Chove nas células do corpo dela, chovem raios de sol em seu corpo-ele, ruínas de uma vida... erosões de um corpo... a chuva castiga o terreno... as mãos dele desenham notas nas cordas do violão, respiros de uma musculatura tão sem ar...
Ele, a janela, lágrimas, ela desce as escadas e por instantes chove entre eles. Chove pelo meio de uma sala, inundando, transbordando, carregando-os com violência na correnteza de um dia. Um dia que escapa no minuto em que ela desce a escada. Ele-ela, a chuva, o beijo sob o cinema antigo. Chove entre eles. E a chuva os carrega pela correnteza de uma noite. Os músculos dançam em suas mãos, a água inunda os corpos, vazar das peles, bombear de represas... a água arrebenta diques e corre livre pelo meio, faz caminho... percorrer...
Respiros de uma vida tão sem ar. Respiros de poros tão secos, tão desérticos... a água lhes cai bem... fecunda a vida. A chuva cai forte, ela, a janela, lágrimas. Ele desce as escadas. Chove entre eles. A porta se fecha e não há mais o que dizer, o rosto encosta-se à fechadura, lágrimas de primavera. Nascem flores no corrimão. Margaridas percorrem o chão daquela tarde chuvosa. O cachorro, o homem, as caixas se foram. E chove forte, barulhando-se os vidros com gotas de uma tarde. Sob o guarda-chuva azul ela caminha São Paulo em seus pés. Ele segura forte as mãos dela, ao volante dirigem sem saber o rumo... sem saber por onde seguir... sem saber o que lhes aconteceu. Que dizem aqueles olhos? Que sussurram os lábios dele-dela mergulhados no pote d’agua da madrugada? Por onde escorrem aquelas gotas que escapam pela veneziana da janela inundada de chuva?
Ele. Ela. Tantos degraus daquela escada, aquele corredor espremendo o tempo, escorriam lágrimas de um viver... chovia. Chovia naquelas peles que se teciam outras a cada toque, a cada úmido resvalo de um no outro. Chovia e a água secava aquela madrugada. Os pássaros na janela anunciavam o raiar da noite estrelada por vir. Que desenhos as estrelas fariam? Que bússolas seguir em mar profundo? Navegantes! Atenção. A maré vai subir. Que caminhos traçam, trançam ele-ela?
Ela olha a chuva começar a cair na janela, seu corpo-chuva respinga gotas de memórias que escapam pelos poros da pele. Misturam-se o suor do esforço que empreende para pintar paredes e as gotas d’água geladas que respingam...um banho de chuva na janela, ela pensa. Por instantes, as gotas agitadas encontram outras gotas e, simultaneamente, o Rio, São Paulo e Porto Alegre chovem.
O cheiro da chuva. O cheiro dele. Uns pêlos tocando-lhe o rosto. Arranhando a pele debaixo do guarda-chuva preto naquela viela de paralelepípedos. Uma rede amarela se balança contra o vento forte que carrega a chuva acompanhada de Elvis... A chuva fustiga a janela e seus olhos observam os passantes na rua, correm a atravessar o farol que insiste em não fechar a tempo, tempo de passar... passam. Teriam eles passado o farol? A sinaleira? O semáforo? Teriam eles arriscado dizer...que diziam?que dirão da chuva que não cessa de cair? Teremos alagamentos? Teremos a represa com água para abastecer a cidade nos próximos meses?
Ela olha a chuva e os raios pela janela. Seus olhos azuis e o cinza das nuvens parecem se confundir, onde começa um, onde termina o outro... que diziam? Que diziam quando as mãos soltas buscavam-se um adeus...que diziam eles... a água invade por todos os lados do vitrô antigo, escorrem gotas pela parede recém pintada... para onde seguem esses rios... fariam baía, Ah! baía querida, que é que guardas para mim? Que peixes poderia colher nesta manhã ensolarada? Que peixes esses homens trazem para seu bico-mulher, bico-ave...
Um corpo-chovendo, um corpo chovendo ele, ela, a janela. Um corpo que chove a presença, as contaminações de outras peles, que chove... pele que enxágua os olhos azuis que escorrem pelos poros rio adentro. Que caminhos traçam, trançam ele-ela? As flores pequeninas da primavera, lilases, rosas, brancas enfeitam os cabelos da cidade-ela nos olhos dele... insistências de um amor...
Não há escolhas possíveis, as combinatórias da chuva-ela multiplicam-se nos vidros daquela tarde de nuvens carregadas e trovões, os raios atravessam os céus, as terras, as peles, fazem de cada trovoada um caminho... cada choque dos átomos, um caminhar... que caminhos traçam, trançam ele-ela? Chove nas células do corpo dela, chovem raios de sol em seu corpo-ele, ruínas de uma vida... erosões de um corpo... a chuva castiga o terreno... as mãos dele desenham notas nas cordas do violão, respiros de uma musculatura tão sem ar...
Ele, a janela, lágrimas, ela desce as escadas e por instantes chove entre eles. Chove pelo meio de uma sala, inundando, transbordando, carregando-os com violência na correnteza de um dia. Um dia que escapa no minuto em que ela desce a escada. Ele-ela, a chuva, o beijo sob o cinema antigo. Chove entre eles. E a chuva os carrega pela correnteza de uma noite. Os músculos dançam em suas mãos, a água inunda os corpos, vazar das peles, bombear de represas... a água arrebenta diques e corre livre pelo meio, faz caminho... percorrer...
Respiros de uma vida tão sem ar. Respiros de poros tão secos, tão desérticos... a água lhes cai bem... fecunda a vida. A chuva cai forte, ela, a janela, lágrimas. Ele desce as escadas. Chove entre eles. A porta se fecha e não há mais o que dizer, o rosto encosta-se à fechadura, lágrimas de primavera. Nascem flores no corrimão. Margaridas percorrem o chão daquela tarde chuvosa. O cachorro, o homem, as caixas se foram. E chove forte, barulhando-se os vidros com gotas de uma tarde. Sob o guarda-chuva azul ela caminha São Paulo em seus pés. Ele segura forte as mãos dela, ao volante dirigem sem saber o rumo... sem saber por onde seguir... sem saber o que lhes aconteceu. Que dizem aqueles olhos? Que sussurram os lábios dele-dela mergulhados no pote d’agua da madrugada? Por onde escorrem aquelas gotas que escapam pela veneziana da janela inundada de chuva?
Ele. Ela. Tantos degraus daquela escada, aquele corredor espremendo o tempo, escorriam lágrimas de um viver... chovia. Chovia naquelas peles que se teciam outras a cada toque, a cada úmido resvalo de um no outro. Chovia e a água secava aquela madrugada. Os pássaros na janela anunciavam o raiar da noite estrelada por vir. Que desenhos as estrelas fariam? Que bússolas seguir em mar profundo? Navegantes! Atenção. A maré vai subir. Que caminhos traçam, trançam ele-ela?
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